terça-feira, março 07, 2006

O Terceiro Mandamento

"Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão." (Êxodo 20.7)

Meu penúltimo post, "O Nome do Senhor", deveria falar sobre o terceiro mandamento. No entanto, quando comecei a escrevê-lo, a introdução ficou tão grande que acabou se tornando um texto separado. Achei melhor concluir os pensamentos sobre a importância do conceito do "Nome" na Bíblia e deixar pra depois essa parte sobre o terceiro mandamento.

Como disse, a reflexão sobre a questão do nome aconteceu durante uma aula de Teologia Sistemática, e naquele momento o que me chamou atenção foi como isso afetaria nosso entendimento do terceiro mandamento. Não sei se algum comentarista já falou sobre o assunto, mas me parece que este mandamento nos proibe de fazer algo muito maior que simplesmente usar algum dos nomes divinos de forma banal. Se fazer referência ao nome de Deus é falar do próprio Deus, banalizar o nome de Yahweh é banalizar o próprio Yahweh. Não estou negando que tomamos o nome de Deus em vão quando agimos desta forma , mas... e se tomar o nome de Deus em vão significar realmente bem mais do que simplesmente isso?

Como disse, revendo esse conceito de nome, a conclusão a que cheguei é que a proibição de banalizar o nome de Deus também deve ser uma proibição de se agir levianamente com o próprio Deus. Isto seria bem mais que simplesmente escrever algumas letras que formam um vocábulo com um certo significado em determinada língua, seria bem mais que proferir sons que juntos representam, de alguma forma, o Criador. Quando Deus anunciou este mandamento, não estava tão preocupado com exclamações do tipo "meu Deus!" ou "jesus christ!" (como gostam os americanos) . Muito mais grave é o "povo que se chama por meu nome" (2Cr 7.14) não agir como um povo digno deste nome, isto é, deste Deus santo. Muito mais importante, então, que escrever D'us ao invés de Deus é como você reage Àquele que leva este nome.

O nome de Deus também pode ser usado em vão mesmo quando ele está num contexto aparentemente apropriado, como um sermão, por exemplo. Às vezes, deixamos passar o uso do nome de Deus em vão porque a palavra "Deus", "Yahweh" ou "Jesus" está presente num discurso religioso, e não nos incomoda tanto como, por exemplo, ver um comediante brincar com "Deus" (ou com o conceito que ele tem de "Deus"). Francis Schaeffer, em A Morte da Razão, nos diz que a cada dia mais se incomodava ao ouvir a palavra "Jesus", porque estavam utilizando este nome tão querido para apresentar uma mensagem que nada tinha a ver com o Jesus da Bíblia. A tendência moderna de enfatizar mais o Jesus da experiência do que o Jesus dos Evangelhos acabou destituindo a palavra "Jesus" de seu significado. Não podemos negar que o nome divino está sendo usado levianamente em situações como estas, e isto num contexto muitas vezes cristão!

Vou mais além e me pergunto se o uso banal de todo e qualquer conceito relacionado ao Evangelho (pois o Evangelho está essencialmente ligado a Cristo) não seria outra forma de desobedecermos a este mandamento divino. Neste ponto, caso eu esteja correto, a igreja moderna terá muito que responder no dia do juízo. É verdade que muitos produtos "gospel" têm intenção evangelística, e muitos crentes preferem usar uma camisa ou um caderno, por exemplo, com uma mensagem bíblica a usar o produto "secular" correspondente. Assim, realmente é difícil saber onde está o limite entre as técnicas aceitáveis de evangelismo e a vulgarização de Cristo e da mensagem da cruz. Não é necessário gastar tempo citando a quantidade de produtos evangélicos que existem por aí, muitos deles sem qualquer relação com Deus, Jesus, a Bíblia ou a Igreja. Chegamos ao ponto de lançarem até um refrigerante evangélico, com versículos nos rótulos e tudo mais. Trata-se do Guaraná Judá.

Falando em guaranás, não sei quantos conhecem o refrigerante cor-de-rosa do Maranhão, o Guaraná Jesus. Diz a lenda que o refrigerante recebeu o nome de seu criador, um ateu chamado Jesus Norberto. Muitas piadas são feitas por causa desse nome, é claro. E, logicamente, muitos crentes ficam chateados com essas piadas e com o próprio nome do guaraná. Não estou defendendo quem brinca com o nome do Salvador, mas realmente me questiono o que é pior - um ateu criar um guaraná chamado "Jesus" ou cristãos professos lançarem no mercado um "guaraná de Jesus"?

Que possamos levar nosso Deus mais a sério.

[ Obs.: Não sei se perceberam, mas tentei deixar muito claro que isto é mais opinião minha que uma certeza. Ainda preciso estudar mais para ver se outros chegaram a uma conclusão parecida sobre o nome de Deus tomado em vão. Ao contrário do post "O Nome do Senhor" não sei de ninguém que chegou a essa conclusão. Se alguém quiser me informar, serei muito grato. ]

8 comentários:

Norma disse...

Oi, Josaías!

E olha que eu provei o tal guaraná Jesus... e ele é horrível! :-)

Ótimo post!

Josaías disse...

acho que só criança pra gostar
eu achava legal beber um refrigerante cor-de-rosa :P

Gustavo Nagel disse...

Ô Josaías! Nem pra avisar que criou o blog! Descobri meio que sem querer. Alguém fez referência a ele na lista Cristãos Reformados. Primeira visita que faço. Li o primeiro post, a aparesentação e o porque de "piores manuscritos". Ainda hoje leio os outros posts e já providencio o link.

Vida longa ao blog, rapaz.

Abração!

Josaías disse...

oi nagel
o que acontece é que não sou muito de divulgar o que escrevo, ainda mais com tantos blogs bons por aí (e daí vem o título do blog, como você já deve ter lido).

mas sinto que a visitação vai ser beeeeem maior que o esperado, ao menos depois daquela mensagem na CR.

abraços

Gustavo Nagel disse...

Po, tava até pensando em te colocar num post de links recomendados...hehehe...

Conrad Pichler disse...

Olá, Josaías (é estranho te chamar assim...)

Compreendi o que você quis escreveu. Melhor, compreendi o que está escrito.
Tenho entrado em um debate constante com meus irmãos evangélicos (sou católico como você sabe) sobre este mesmo tema, e minha posição é bem parecida com a sua. Não sei até que ponto a camisetas "Jesus Cristo" subverte a idéia das camisetas "Cavalera", ou seja, não sei o quanto a "camiseta do Senhor" é um resposta religiosa ao consumismo, ou a mercantilização do ser humano, da humanidade e mais profundamente da espiritualidade, enfim, de Deus. Porque apenas vejo uma troca de significantes, de forma, cujo sentido é o mesmo, vender, dispondo como irrelevante o significado da palavra e do nome do Senhor.
Aparentemente, na prática apenas há uma substituição de formas, não de pensamento e atitudes de nossos irmãos cristão professos. Como você disse, isso me preocupa mais do que um ateu chamar um refrigerante de "Jesus".

Grande abraço,
Conrad

Josaías disse...

Conrad, e eu não sei por que você está me chamando de Josaías :P

eu entendo o que você quis dizer, mas acho que essa questão das camisetas é algo natural. acho que a idéia de quem usa uma camisa com algum nome, seja lá qual for, é a mesma de alguém que entra em comunidades do orkut. como assim? no sentido de que você quer mostrar quem você, do que você gosta, quem é importante para você. acho que se passa mais isso na cabeça das pessoas que vestem essas camisas do que o confronto do consumismo ou de outras marcas. pelo menos normalmente, acredito.

na verdade, quando escrevi isso, eu me preocupava mais com aqueles que fabricam esse tipo de produto do que com aqueles que compram. muito deles, eu acredito, que não querem confrontar nada disso que você falou. pelo contrário, querem ir na onda e faturar a deles.

mas, cada caso é um caso. conheço vendedores e compradores de camisa bem-intencionados. não que boa intenção seja tudo, mas é uma dificuldade a menos com isso.

Conrad Pichler disse...

Fala, JOSA! :D
Já virei leitor constante de seu blog... :D

Bem, pode até ser. Mas, de boa intenção o "inferno está cheio"... mas, como você disse, cada caso é um caso. O que me preocupa é que "Jesus", enqunto "marca", apenas serve a uma mecanização do nome, afastando ela do significado que nele contém... como você disse no outro artigo sobre nomes, o nome é "mais que letras coladas", "sons agrupados", são o prórprio Senhor... mecanizar o nome de Deus é mecanizar a nossa própria relação com Deus.

Abraço!
Conrad