Domingo passado realizou-se em minha igreja o primeiro Culto de Inclusão. O propósito era falar sobre o desafio de termos em nosso meio pessoas portadoras de necessidades especiais e ensinar a congregação a lidar com estas pessoas. Talvez os defensores mais radicais do "Princípio Regulador de Culto" e aqueles que odeiam qualquer idéia que cheire a pensamento politicamente correto se lamentariam ao ver algo assim na igreja. No meu caso, pude aprender e perceber algumas coisas.Notei que a igreja está muito atrasada nesta questão. Acredito que o pensamento dos cristãos deve guiar o mundo, como acontecia antigamente. Por exemplo, em A Morte da Razão (Francis Schaeffer) e O Cristão e a Cultura (Michael Horton) descobrimos que a teologia da Reforma foi essencial ao desenvolvimento da ciência como hoje conhecemos. Houve um tempo em que o cristianismo estava à frente de sua época, surpreendendo e (por que não?) escandalizando pessoas por dar um lugar à mesa aos excluídos e diferentes.
Não sei quantas igrejas dão atenção a este assunto, mas parece que são poucas. Isto é uma pena. Os crentes deveriam ser os primeiros a perceber que existem pessoas presentes na Comunidade da Aliança precisando de uma atenção diferente da maioria. Ao mesmo tempo, a Igreja deveria chamar atenção da sociedade para essas pessoas e ensinar como tratá-las. Como não fizemos isso, coube aos incrédulos lembrar-nos que um autista, um cego ou um surdo são diferentes. E nos ensinar como lidar com eles.
Infelizmente, aprendi que alguns crentes não se conformam em simplesmente ignorar a diferença. Ainda têm a insensibilidade de aborrecer os pais das crianças que nascem com deficiência. Procuram uma causa para o "problema" que os agrade. As sugestões ainda são aquelas conhecidas desde a época de Jesus. "Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?", perguntam os discípulos (Jo 9.2). Cheios de boas intenções (ou não), alguns irmãos perguntam aos pais se eles não tinham algum pecado oculto que levasse a criança nascer com o "defeito". Ironicamente, foi a mãe de um menino com uma deficiência visual quem contou isto. Outros tentam apresentar uma solução - "visite o culto do pastor fulano, este é poderoso". Em busca de uma cura sobrenatural, muitos pais aprendem, aos trancos, que hoje o milagre não vai chegar, ao contrário do que andam cantando por aí. Aprendem que depende mais da soberania divina que dos seus próprios desejos. Não deveríamos deixar de infantilidade e atentarmos para a clara resposta de Cristo à pergunta dos discípulos?
(Não resta dúvida de que um pecado é a causa de tudo isso. Mas não um pecado oculto. Um pecado tão famoso que toda hora é representado em quadros, filmes, propagandas e praticamente em toda forma de expressão. Trata-se do pecado de nossos pais, Adão e Eva, este sim responsável por uma "maldição hereditária" que avança sobre toda a Criação, e não apenas sobre os filhos diretos do casal. Trata-se de uma maldição que somente Cristo - e nenhum outro poder - pode destruir.)
Mas, voltemos à resposta do Senhor. Existe uma causa maior e mais nobre que o pecado do homem. Alguns não consideram esta uma resposta boa, mas é a resposta bíblica. "Foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus", responde o Mestre. E então, Jesus cura o cego e isto faz com que muitos pensem que a obra de Deus se resume apenas a curas sobrenaturais no tempo presente (pois certamente as enfermidades dos crentes serão curadas na era futura). Estas obras de Deus podem manifestar-se de outras formas na vida dessas crianças e dos pais delas. Mas a causa (e o objetivo) delas é o mesmo - a glória de Deus.
Ao explicar a enfermidade de Lázaro, em João 11.4, vemos que ela aconteceu para a glória de Deus. E Paulo sabia muito bem que seu espinho na carne existia para a glória de Deus (2Co 13.10). Sei que não é uma resposta fácil. Um Deus que faz nascer crianças com defeitos para sua própria glória? Mas eu não disse que seria uma resposta fácil, disse que é uma resposta bíblica! E ainda assim prefiro crer num Deus que está no controle de tudo, inclusive do nascimento de crianças portadoras de necessidades especiais (Êx 4.11) a acreditar que as má formações vão surgindo a medida que os pais vão pecando.
Para aqueles que ainda não engoliram bem essa idéia, talvez torne-se mais fácil saboreá-la se assistirem os testemunhos dos pais dessas crianças. Todos eles são gratos a Deus pela vida de seus filhos; eles notam como Deus usou as preocupações extras para moldá-los; estão mais compreensivos, mais sensíveis, mais pacientes e mais tolerantes. Estes homens e mulheres carregam as crianças como verdadeiros troféus, como a herança do Senhor (Sl 127.3), o que eles realmente são. Não há como não se contagiar com esta alegria e não glorificar a Deus por seus misterious ways.
A igreja precisa estar atenta e sensível a esse tipo de situação. É claro que muitas já têm se preparado para auxiliar os pais. A Igreja Batista Central de Brasília, uma das maiores do DF, por exemplo, já tem toda uma estrutura e pessoas treinadas para lidar com os "especiais". Mas, no geral, isto não vem acontecendo. Precisamos agir com menos superficialidade e com mais sensibilidade. Mesmo soando mal para alguns, poderia dizer até com mais profissionalismo. Uma criança autista, por algum motivo pode gritar no meio da pregação. O que faremos? Vamos colocar a liturgia acima do menino? Vamos parar o culto porque é inviável continuar assim? Não tenho as respostas também. Mas iremos procurá-las ou deixar os portadores de deficiência de lado?
O certo é que há uma igreja deficiente. Quando escolhi o título do texto, estava pensando em fazer uma ironia com a igreja que é incapaz de lidar com as pessoas e por isso é deficiente. Sim, muitas vezes nós somos uma igreja cheia de dificuldades e defeitos. Mas podemos corrigí-las ao reconhecer que existe uma outra igreja deficiente entre nós. São nossos irmãos portadores de necessidades especiais, que também carregam a imagem de Deus neles e que também são recebidos pelo Senhor. Nossa igreja deixa de ser deficiente quando reconhece dentro de si os irmãos que precisam de um cuidado diferente. E este foi o tema do culto - "todos somos diferentes". Glória a Deus por isso.
"Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas, mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo." (Atos 10.34)
5 comentários:
Interessante, Josaías.
Sabe de uma coisa: aqui no Rio, as igrejas perceberam a importância da inclusão dos surdos. Vários projetos de Libras e tal. Mas veja só. Só se lembraram dos surdos. Não me lembro de nenhuma ênfase nos cegos e outras pessoas especiais. Mas já é um começo.
Deus abençoe o projeto de vocês.
Abraços.
com surdos várias igrejas já trabalham há anos aqui, inclusive a minha. Mas até hoje vejo gente que não dá importância a esses trabalhos, e até reclamam quando os surdos têm alguma participação especial no culto. Não me considero nenhum ativista dessa causa (mal tenho tempo pra mim), mas percebi que há muita ignorância em nosso meio, então resolvi falar. :)
abraços.
Olá,
Três coisas:
1 - temos que reconhecer nossas deficiências e aceitar a deficiência do próximo;
2- temos que agir para incluir (o mais rápido possível);
3 (e talvez o mais importante) - temos que ouvir a voz desses irmãos portadores de necessidades especiais, além de pais e responsáveis, talvez eles nos indiquem o caminho para cumprir 1 e 2;
A Paz!
Conrad
Realmente eh uma vergonha o que acontece.. mas que nem vc disse aqui, eu tb nao sou nenhum ativista, pelo contrário axo que todos somos hipócritas muitas vezes...
de qualquer maneira, axo que com o tempo (como qualquer outra coisa) as pessoas acabam acostumando (por pior que isso seja) ao invés de se conscientizarem de prontidão.
espero que não seja assim...
Na minha Igreja tem alguns deficientes também.
Tem os chamados fronteiriços, limítrofes... ou algo do tipo.
Por muitas vezes são motivos de chacota. É triste! E o pior é que as crianças vão aprendendo pois imitam o que os adultos fazem...
O mínimo que se podia fazer, uma vez que não há um trabalho voltado para eles, é respeitar e tratar com dignidade.
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