sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Habacuque e eu

Acho que foi por volta de 87, 88 que aconteceu essa história. Era criança e estava andando de ônibus com alguns parentes, voltando de alguma cidade-satélite para o Plano Piloto (essa é uma linguagem característica de Brasília, espero que todos entendam). à noite. Acho que se você pedir pra alguém confirmar a história, ninguém nem vai lembrar de que dia foi esse. Eu nem me lembro por que estávamos de ônibus, por que estava com esses parentes e de que cidade-satélite estávamos voltando. O importante é que tem algo que nunca me esqueci naquela viagem.

Uma senhora entregou para mim e meus primos um desses folhetos evangelísticos. Observamos os versículos que provavam cada ponto do texto, e reparamos que existia um nome meio esquisito ali. Isso mesmo, era Habacuque. Nos olhamos e alguém comentou - "Habacuque? Tem esse livro na Bíblia?". "Nunca ouvi falar", outro respondeu. Eu, que na época estudava em colégio católico, disse, cheio de confiança - "Na Bíblia dos católicos existem alguns livros a mais. Deve ser um folheto de católico". Peguei o papel e joguei pela janela. O triste é que a senhora viu. Mas não falou nada, tadinha. Mas ficou mais triste depois que alguém perguntou pra um adulto se existia Habacuque na Bíblia. Aí sim vi a bobagem que tinha feito.

O caso ficou na minha memória (aliás, a única coisa que ficou dessa saída com os primos) e voltava de vez em quando. Poucos anos depois, ainda era criança, decidi ler um livro inteiro da Bíblia. Mas, qual escolher? Utilizando-me do conhecido método do "mamãe-mandou-eu-escolher-este-aqui", primeiro entre os testamentos, depois entre as divisões do Antigo Testamento, depois entre os profetas, etc, etc, cheguei finalmente a um livro - Habacuque! Fantástico, hein? Seria um sinal divino? Seria, se eu não tivesse trapaceado (comigo mesmo, diga-se de passagem) no meio da brincadeira, pra chegar justamente nesse livro de nome estranho e tão desconhedio. O caso do folheto ainda estava na minha cabeça e Habacuque merecia, no mínimo, uma leitura. Li tudo. Não entendi nada.

O pobre Habacuque ficou esquecido, então. A história, às vezes era lembrada. Mas bem raramente. Em 2004, porém, o profeta voltou a me chamar a atenção (com certeza passei outras vezes por ele antes desse ano, mas em leituras superficiais o suficiente pra ele continuar sendo simplesmente um dos 12 profetas menores). O Pr. Isaltino Gomes, da Igreja Batista do Cambuí, fez uma palestra sobre o livro na Faculdade Teológica. Na ocasião, ele falaria sobre outro profeta, mas quis Deus que um problema com a projeção e slides fizesse ele mudar de tema. Aquela mensagem foi muito marcante para mim, e pude compreender o livro muito mais. Sua exposição de Hc 2.20 até hoje me emociona. Além disso, pude finalmente perceber que o profeta era um homem comum, cheio de fé, mas que também tinha dúvidas e questionamentos sobre o governo de Deus sobre a humanidade. Habacuque estava se tornando menos obscuro finalmente.

Em 2005, um colega teve de fazer um trabalho sobre Habacuque, para nossa matéria de Antigo Testamento. O que me chamou atenção dessa vez foi a exposição dos 5 "ais" do capítulo 2. Anotei o nome dos livros que esse colega usou para o trabalho e passei na biblioteca. Li um capítulo de um dos livros do Pr. Isaltino sobre os profetas menores e percebi que Habacuque nos diz muita coisa mesmo em seu pequeno livro.

Toda essa história me lembra de algo que aconteceu comigo anos atrás (e de vez em quando ainda acontece!). Conhecia uma pessoa de minha igreja há anos e nunca tinha trocado muitas palavras com ela além de "oi", "tudo bom?", "tchau" e "hoje tá quente, hein?". Acontece que um dia resolvi adicionar esta pessoa como contato da internet. Nesse dia pude conhecer alguém muito interessante em poucas horas, alguém que não conheci nos 5 anos anteriores de contato (será que poderia chamar isso de contato?). O tempo todo essa pessoa estava ali, na minha frente, com tantas histórias interessantes e pronta pra uma amizade.

Me parece que, com Habacuque, a situação é semelhante. Ele sempre esteve ali, meio perdido entre os profetas. Depois que soube que ele existia, passei a cumprimentá-lo de vez em quando, mas algo bem distante. Até o dia em que parei pra pensar melhor sobre os seus escritos proféticos e percebi que havia ali alguém com quem eu poderia manter uma longa, porém agradável e proveitosa conversa. Não foram poucas as vezes que recorri ao velho Habacuque, após me deparar com algum questionamento mais complicado ou algum sofrimento menos compreendido. Normalmente as pessoas recorrem a Jó, mas Habacuque ultimamente me parece muito mais confortante. Graças a Deus por nos apresentar textos para todos os gostos. Graças a Deus por este profeta.

Por fim, decidi este ano dedicar cada mês ao estudo de cada um dos profetas menores. Comecei, não por acaso, com Habacuque. Poderia ter seguido a ordem normal das coisas e iniciado com Oséias, mas resolvi que deveria começar com este velho amigo. É impossível fazer um estudo minimamente sério deste livro e não se identificar com o profeta, em sua torre de vigilância, aguardando ansiosamente a resposta de Deus para um mundo que parece não fazer sentido. Espero em breve postar minhas impressões sobre esse pequeno livro. Assim começo a pagar uma dívida com meu amigo Habacuque, depois de levianamente ter excluído ele da Bíblia.

3 comentários:

Anônimo disse...

Pode crer! Fiquei curiosa por saber algo mais sobre esse profeta. Não deixe mesmo de escrever e postar aqui. Vai ser ótimo.

Ivonete Silva disse...

Josinha,
Publica aqueles textos do Shedd aqui, aqueles que saia no site da sua igreja.

Anônimo disse...

Fala Josa
depois de ler esse texto, me interessei pela vida dele.
Acho que vou começar a estuda-lo
hehe
abraço