quinta-feira, março 16, 2006

Questionando Deus (Hc 1.2-3a)

2 Até quando, SENHOR, clamarei por socorro, sem que tu ouças? Até quando gritarei a ti: “Violência!” sem que tragas salvação? 3 Por que me fazes ver a injustiça, e contemplar a maldade?

É curioso que muitos céticos se orgulhem de sua "incrível" capacidade de questionar tudo. Existe uma idéia de que a pessoa que é religiosa não questiona, simplesmente aceita as coisas como elas são e estão. Diz Dráuzio Varella que "a religião implica em você acreditar e aceitar fatos sem explicação." O cético aplaude essa frase e acredita que só ele levanta dúvidas, pois não podemos ter certeza de nada. E esta é a única certeza. Felizmente, alguns escritores já demonstraram o erro e, ironicamente, a irracionalidade do ceticismo. Vicent Cheung, por exemplo, faz isso muito bem (pena que não me lembro aonde, mas com certeza está no Monergismo).

Boa parte daqueles que imaginam que não levantamos perguntas às nossas próprias crenças falam superficialmente ou por falta de conhecimento. É verdade que muitas coisas estão ocultas para nós e não temos como questionar. Também é certo que existem assuntos na fé que, se questionados descuidadamente, nos levam para fora do Cristianismo (por exemplo, se Jesus existiu mesmo). Mas isto não quer dizer que um crente não pode levantar ou não levanta questionamentos. Eles podem, e aqui está um profeta que faz isso sem dificuldades e sem cair na irreverência. E Habacuque vai direto naquela pergunta que é uma das mais complicadas - o problema do sofrimento.

O melhor é que o profeta não procura soluções fáceis. É muito simples responder a questão negando um dos seus fatores - a existência de Deus, a bondade de Deus, a onipotência de Deus ou a existência do mal. Isto é o que todas as outras religiões ou cosmovisões fazem, de uma forma ou de outra. Mas segundo a Bíblia não há esta possibilidade. E nem para Habacuque. Ele sabe que Deus está no controle, sabe que Deus é "tão puro de olhos que não pode ver o mal" (1.13), e que tanto Deus quanto o mal exisitem. E Habacuque não se satisfaz nem em colocar a culpa no homem e no mal uso de de sua vontade. Habacuque consegue ser um verdadeiro crente e um verdadeiro questionador. Ele não desiste do problema ignorando uma das icógnitas da equação, ele vai atrás da causa última de seus problemas - Yahweh.

Todos os comentaristas concordam que Habacuque diferencia-se dos outros profetas justamente por isso. Normalmente, quando um profeta levanta sua voz, ele questiona as atitudes do povo de Deus (Oséias, por exemplo) ou de uma outra nação (Obadias, por exemplo). Às vezes, ele pode direcionar-se apenas a alguém ou a uma instituição específica. Mas Habacuque volta-se para Deus. Ele não tem dúvidas de que os pecadores são responsáveis pelo pecado, mas ele sabe também que Deus é soberano. E é a forma de governo de Deus sobre o Universo que ele não consegue aceitar tão facilmente.

O curioso é que ele não é repreendido por tal atitude. Ao invés do que muitos crentes pensam, existe um questionamento que é saudável e reverente. Mas não se tratam de perguntas frias, desprovidas de qualquer sentimento. Pelo contrário! O profeta deixa transparecer suas emoções por todo o texto. É isto que fascina tanto nesse livro, pois podemos nos identificar com a dor e as queixas de Habacuque. Ele aguarda uma resposta que parece nunca vir. Quantas vezes não passamos por algo parecido?

Logo tentarei desenvolver mais sobre isso. Por enquanto, fiquemos com essa lição - nós podemos questionar e nos queixar. Se temos problemas com o que está acontecendo conosco ou ao nosso redor, Deus não está fechado para nossas dúvidas. Não é pecado perguntar. Se fosse, com certeza o profeta ouviria uma repreensão e ela seria registrada em seu livro. O profeta foi reverente, mas também agiu como ser pensante que é. A fé não é oposta da razão, como muitos querem. Como Habacuque, o crente pode pensar, questionar e se indignar diante da realidade.

Que possamos aprender isto e ensinar os outros.

3 comentários:

Anônimo disse...

Eita Josa, esse post calou fundo!
Eu concordo. Deus não nos desumaniza, sabe dos nossos sentimentos, dúvidas e limitações...
Ele nos trata com muita paciência e amor e não nos condena pelas nossas dores.

Gustavo Nagel disse...

Fala, Josaías! Tudo bem?

Bom, o blogger acabou de sumir com meu comentário. Então fica aqui o conteúdo mais resumido do comentário anterior:

Eu concordo plenamente contigo. Entendo que razão e fé não são contrários. E entendo que o Deus que nos criou se comunica de fato conosco. Não um conhecimento exaustivo, mas um conhecimento verdadeiro.

Seus estudos sobre Habacuque estão muito bons.

Abraços.

Josaías disse...

Obrigado pelos comentários dos dois. Eu gosto disso porque vocês me dão mais ênfase em detalhes que não reparo. Tenho medo de às vezes esquecer da humanidade do homem e tenho medo de focar mais o silêncio de Deus do que Deus falando, ao menos nesse texto.

Obrigado pelos comentários e espero que continuem gostando :D