domingo, março 12, 2006

O peso de Habacuque (Hc 1.1)

para os preguiçosos e sem tempo: os três pontos no final do texto resumem tudo que está escrito aqui.
Introdução
Antes de iniciarmos realmente o estudo do texto bíblico, podemos aprender um pouco mais sobre este profeta e o tema de seu livro já no primeiro versículo. Às vezes prefiro estudar os textos palavra por palavra, mas espero que não se torne algo muito cansativo. Também acho que não sou nenhum Lloyd-Jones pra gastar páginas e páginas em um simples versículo sem cair na tentação de acrescentar algo que o versículo não estar dizendo e ao mesmo tempo ser pertinente, original e desafiador. Se um dia conseguir isso, me aventuro mais. Por enquanto, só quero botar no papel (ou na tela) o que entendi no texto e ser de auxílio pra quem não conhece muito sobre esse livro tão pequeno.

"O peso que viu o profeta Habacuque." (Habacuque 1.1, ACF)

1. "o peso..."

Normalmente a palavra traduzida aqui como "peso" é traduzida como "oráculo", "mensagem", "advertência" ou algo relacionado a isto. Mas a palavra no hebraico significa realmente "peso" e muitas vezes é usada no Antigo Testamento em seu sentido literal. E se acompanharmos a história do profeta, veremos que a sua mensagem realmente foi um peso. Habacuque é um livro atípico, porque ele registra não apenas o que Habacuque falou, mas a situação que ele viveu antes de sua pregação profética se iniciar. Dessa forma, todos os questionamentos e aflições do profeta são registradas também como mensagem inspirada por Deus e, talvez mais que qualquer outro livro, a palavra peso se encaixa perfeitamente com o que é proclamado pelo profeta.

Mesmo que assumamos que o peso carregado por Habacuque seja apenas o anúncio feito à Israel e aos babilônicos (e não o livro inteiro), ainda assim percebemos o que ele deve suportar. A notícia que o profeta traz ao seu povo parece tão absurda que até Deus diz - "vocês não vão acreditar quando contarem essa" (1.5). Imagine carregar esta responsabilidade. Habacuque levava uma mensagem de julgamento à sua nação e isto não o agradava. Isto não quer dizer que ele era desobediente. Pelo contrário! Acredito que é justamente em situações como estas que os homens realmente provam ser obedientes. É bem menos difícil ser um mensageiro que traz boas novas. Como nós, que carregamos uma mensagem que, embora inclua a idéia de julgamento, traz primordialmente salvação e alegria.

Não estamos dizendo com isso que Habacuque não traz uma mensagem positiva. Pelo contrário, o salmo no último capítulo é uma das mais belas declarações de confiança em Deus já escritas. A base para aquelas palavras se encontra no centro do livro, em Hc 2.4 - "mas o justo pela sua fé viverá" - texto considerado por alguns (Pr. Isaltino, por exemplo) como o versículo mais importante da Bíblia. Essa é a base da confiança de Habacuque, e também de Paulo (Rm 1.17; Gl 3.11). Paulo viu nos eventos da morte e ressurreição de Cristo o cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento e, entre elas, o cumprimento das profecias de Habacuque. Agora, ele realmente entendia como o justo viveria pela fé. Aquilo que estava encoberto no tempo dos profetas tornava-se claro na época do Apóstolo.

2. "...que viu..."

Assim, podemos dizer que Habacuque é um profeta escatológico. Para Luis Sayão, o fato de Habacuque ter visto a sua mensagem, ou peso, afasta-o um pouco de seu contemporâneo Jeremias, e mais próximo de Daniel, Malaquias e Zacarias (observe como esses três profetas caracterizam-se bem mais pelas visões e e dão mais atenção aos últimos dias que a grande maioria dos outros). É por isso que, ao analisar o nascimento de uma nova era em Cristo Jesus, Paulo pôde entender mais claramente como o justo viveria pela fé. Habacuque não viu uma mensagem que serviria apenas para seu tempo.

Esta mensagem não serve apenas para o seu tempo porque ela é do próprio Deus. Os profetas, como mediadores da Aliança, representavam o povo diante de Deus e representavam Deus diante do povo. Desta forma, a mensagem de Habacuque é divina e, por ser divina, transcede a época em que foi proferida e nos é proveitosa até hoje. Naquele momento crítico, em que reis e sacerdotes serviam mais como representantes do pecado que de Deus, apenas os profetas exerciam de fato e de verdade seus papéis legítimos de mediadores da Aliança. Hoje não temos este problema, pois nosso Mediador é Jesus Cristo, que exerce de forma perfeita seus ofícios de rei, profeta e sacerdote.

3. "...o profeta Habacuque."

O curioso é que este papel mediatório dos profetas normalmente é esquecido ou diminuído. Apenas um livro dos que consultei trata Habacuque desta forma (um comentário de O. Palmer Robertson). É uma pena que isto aconteça, pois me parece que para entendermos melhor Habacuque devemos ter sempre isto em mente. Nosso protagonista poderia não estar falando por todo o Israel, mas certamente (e de forma inconsciente, talvez) ele falava pelo remanescente, aqueles israelitas que permaneceram fiéis no período tão difícil que o país atravessava. Se você observar bem o diálogo entre o profeta e Yahweh, poderá notar que o profeta fala por si, mas Deus responde como se pessoas tivessem perguntado. Ele pergunta "por que eu vejo isto?" e o Senhor diz "vocês vão ver mais ainda".

Habacuque é a voz do justo, daquele que (sobre)vive no meio da violência que se instalou nas instituições políticas e religiosas de Israel, mas que clama por socorro e vive pela fé. Habacuque também é a voz do Justo, do Santo, dAquele que sustenta a fé do povo ainda que a figueira não floresça. O profeta exerce estes dois papéis neste livro, mas identifica-se plenamente apenas com o povo, e nós nos identificamos com ele. Neste ponto, vemos como a Antiga Aliança é inferior à Nova, pois o Mediador atual tanto se compadece dos homens (e assim podemos nos identificar com Ele) como compreende plenamente a mente de Deus, pois é o próprio Filho de Deus.

Resumidamente, o que podemos tirar deste primeiro verso é o seguinte:
  1. Este homem tem uma mensagem, mas não se nega a proclamá-la, por mais "pesada" que seja. Quantas vezes eu me nego a proclamar a minha, por comodidade, por vergonha, ou o que for?
  2. Como um profeta escatológico, Habacuque viu que sua mensagem teria um cumprimento definitivo na vinda do Messias. Ele a proclamou pela fé, pois vivia pela fé. Hoje vemos que sua mensagem era verdadeira, e vivemos pela fé quando aceitamos seu cumprimento em Cristo.
  3. Habacuque, como profeta e mediador, tinha uma mensagem divina e relevante. Em nossa época, a mensagem do Antigo Testamento é cada vez mais desprezada e considerada desnecessária. Precisamos ter em mente essa idéia bíblica do mediador para valorizarmos ainda mais a Escritura e compreendermos melhor a obra de Cristo no tempo presente.

John Stott nos diz que um mensageiro não traz dignidade à mensagem. Pelo contrário, a mensagem é que traz dignidade àquele que a proclama. Acredito que, pelo pouco que vimos da natureza da mensagem de Habacuque, estamos diante de um dos personagens mais nobres da Bíblia e, se assim desejarmos e o Senhor permitir, podemos retirar muitas riquezas de cada pequena fração da mensagem desse profeta. Graças a Deus por ter levantado um homem assim.

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu li todinho, imprimi para minha mãe ler porque ela gosta muito desse livro. ;)

Josaías disse...

Ufa, ia dizer "pelo menos alguém leu", mas Deus é tão bom que fez duas pessoas lerem esse post gigante :P

Anônimo disse...

Meu pai tbm leu. Eles amaram!
Por favor, continue. Os estudos estão ótimos!