sexta-feira, março 24, 2006

A Parábola do Filho Mais Velho

Detalhe de 'A Volta do Filho Pródigo' de RembrandtNa única vez em que preguei no culto da noite em minha igreja, escolhi como texto para a mensagem aquele que conhecemos como Parábola do Filho Pródigo. Li um livro em que o autor (não, não é o do Henri Nouwen. esqueci o autor e o livro sumiu!) preferia chamá-la de Parábola do Pai Misericordioso, mas no dia da minha pregação voltei a atenção para aquele que normalmente é esquecido nessa história, o irmão mais velho. Naquele momento, me parecia que o personagem em que muitos crentes mais se encaixam é o filho primogênito daquela família. O objetivo era corrigir isto e levá-los a se identificar com um personagem que fizesse um paralelo melhor com a missão da igreja.

Não restam dúvidas de que a grande maioria das pessoas que lêem Lucas 15 se identificam mais com o pródigo. Só que a missão da igreja não é ficar para sempre pedindo perdão por sua rebeldia e por seus pecados. Alguns crentes devem achar que é uma ousadia aceitarmos um papel que, na intenção original de Jesus, representa Deus. Porém, me parece que nosso objetivo deveria ser nos tornarmos cada dia mais parecidos com aquele Pai misericordioso da história. Deveríamos estar sempre prontos e ansiosos para receber e abraçar aqueles que se arrependeram de seus erros, por mais graves e insolentes que tenham sido. Será que é isso que acontece na prática?

Não tenho dúvidas de que a igreja está esquecendo dessa função paternal que a comunidade da Aliança deveria ter em relação aos pecadores. Deixo bem claro que não estou pregando a licensiosidade. Pelo contrário, somente quem alcançou a maturidade e experiência em lutar contra as tentações pode oferecer ajuda para aqueles que ainda estão iniciando sua carreira e ainda caem muitas vezes. Como antigos filhos pródigos, deveríamos entender muito bem aqueles que acabaram de perceber como foram tolos por deixar a casa do pai.

Pra ilustrar como muitos crentes entendem mal sua função no mundo, veja o que li esses das. Observei numa comunidade evangélica do Orkut uma discussão sobre o fato da Igreja Batista da Lagoinha aceitar o Guilherme de Pádua (aquele cara que assassinou a Daniela Perez a tesouradas, fazem alguns anos) como membro. Além disso, ele também trabalha em alguma área da igreja, uma função remunerada.

(Antes de continuar, aviso que não estou defendendo a Lagoinha de todos os seus erros, nem afirmando que concordo 100% com eles. Também não estou entrando na questão de se o Estado deveria ter libertado o Guilherme de Pádua ou não. Por fim, não estou criando um debate sobre a conversão dele. Estou pressupondo que sim, que ele apareceu arrependido de seus erros por lá e o aceitaram. O que quero discutir é a reação das pessoas, simplesmente.)

Primeiro, porque o rapaz exercia esta função remunerada por lá, sua conversão foi questionada. "Será que ele aceitou Jesus ou é apenas um vínculo empregado/patrão?", perguntou alguém. Mas não se lembrou que alguém com um passado desses teria uma grande dificuldade em procurar um emprego pelas vias normais. Estavam mais preocupados com a Lagoinha receber um assassino e por eles lhes conferirem certa dignidade. Outros se indignaram porque estavam agindo como se nada tivesse acontecido. E muitos lembraram-se do "escândalo" que isso causaria. Alguns fizeram mal uso de um versículo de Amós para dizer que Deus não deixa alguém culpado sem seu castigo (fico imaginando qual entendimento que eles têm da salvação).

Me lembrei então da parábola, e notei que a reação destes irmãos foi bem parecida com a do filho mais velho. Como seu pai poderia receber aquele pródigo que desprezou tudo o que tinha de graça? Como seu pai poderia honrá-lo depois de gastar todo o dinheiro com prostitutas? O que os vizinhos iriam pensar disso? Eu, me assentar na mesma mesa que ele? Imagine o escândalo! As pessoas de fora vão dizer que é muito fácil ser crente assim, sem se esforçar! Certamente meu pai enloqueceu e preciso repreendê-lo por seu erro!

Não estou dizendo que é uma situação fácil, nem que os pecados não têm conseqüência. Digo apenas que, como os representantes do Pai Misericordioso aqui na terra, deveríamos agir como ele agiria, como verdadeiros embaixadores dele. Um embaixador brasileiro que se instala em outra nação não está lá pra falar sua opinião, mas está lá para ser o Brasil naquele país. Da mesma forma, não estamos aqui para darmos opiniões a respeito da "loucura" de Deus ao aceitar os mais desprezíveis pecadores. Pelo contrário, somos o Reino de Deus aqui e devemos agir de forma tão escandalosa quanto o Rei que representamos.

Estamos prontos para dizer como o pai misericordioso: "Este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado"(Lucas 15.24)?

Imagen: Detalhe do quadro "A Volta do Filho Pródigo", de Rembrandt. Na figura, o filho mais velho. Você pode ver o quadro todo clicando aqui.

2 comentários:

Anônimo disse...

O filho mais velho somos muitos de nós que estamos nas Igrejas.

- Não desfrutamos da plenitude da companhia do Pai pois estamos mais preocupados em "fazer o serviço direitinho". Muito, muito, muito ativismo. Pior: exigimos favores pelas benfeitorias que executamos, nos achamos sempre no "direito" de merecedores da graça de Deus.

Ora, graça é um favor imerecido... ninguém, por mais que faça coisas boas, tem como merecer a Graça de Deus, por isso Ele mesmo nos dá. Nós jamais a alcançaríamos por nossas obras.

Só quando nos enxergamos como realmente somos passamos a ter mais misericórdia e amor pelas pessoas, tendo elas feito o que tiverem feito... somos todos iguais diante do Pai, nenhum é mais merecedor do que outro.

Josaías disse...

Rute, disse tudo. Depois do culto, um cara veio perguntar pra mim, todo espertão, "será que, depois de voltar pra casa, o filho pródigo fez por merecer o perdão do pai?". Primeiro, me perguntei se tinha sido claro, porque parece que ele não entendeu que o foco da mensagem era justamente "não merecemos o tratamento que Deus nos dá".

Segundo, ficou muito claro como a cabeça de muita gente da igreja funciona. Até na parábola de Jesus o cara tá preocupado se o filho mais novo foi santo o suficiente pra fazer valer o perdão do pai. Acho que na cabeça dessas pessoas elas estão sendo boas o bastante para merecerem que Deus os mantenha como filhos. Que idéia triste de graça :( Confesso que no dia fiquei chateado e preocupado.