sexta-feira, abril 28, 2006

Cristo, Nosso Sacerdote (3)

"Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus" (Hebreus 7.26)

4. Separado dos pecadores

Um dos temas que o autor de Hebreus mais enfatiza durante todo o seu texto é a humanidade de Cristo. Para ele, seria impossível que o Senhor realizasse sua obra se não fosse 100% homem, pois é através da identificação de Jesus com seus irmãos que ele pode interceder por eles e exercer seu papel de mediador entre Deus e os homens. "Por isso convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo" (Hb 2.17). Era necessário, portanto, que Jesus fosse homem. O famoso livro de Santo Anselmo, Cur Deo Homo (Por que Deus se fez homem?), tem uma de suas melhores respostas neste versículo.

Alguns não aceitam bem a plena humanidade de Jesus por temerem que isso o torne alguém com a natureza caída de Adão, isto é, que ele se "inclinasse para as coisas da carne" (Rm 8.5). Outros já temem que a missão de Cristo tenha se tornado "muito fácil" pois ele era Deus e, portanto, completamente puro. O autor de Hebreus nos dá uma resposta equilibrada, pois em nenhum momento nega a humanidade de Cristo ("em tudo semelhante aos irmãos"), mas não ignora as tentações e dificuldades que o homem Jesus de Nazaré suportou aqui na terra. Em Hb 4.15 ele nos diz que "não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado."

A diferença entre Jesus e os outros sacerdotes é esta - enquanto os antigos levitas cairam várias vezes em tentações, e até levavam o povo a cair (vide o caso de Arão e o bezerro de ouro), Jesus sofreu tentações como nós sofremos, mas foi sempre obediente. Precisamos nos lembrar que a justiça de Cristo, que nos é imputada por Deus (Rm 4) é fruto destes 33 anos de pura obediência mesmo diante das mais fortes provações - sejam aquelas de Satanás, seja a sugestão do povo para que ele assumisse o posto de Rei, o conselho de Pedro para que ele não pensasse nos sofrimentos e, quem sabe, situações que não conheçamos. As decisões de Jesus frente às opções que lhes eram apresentadas foram decisões verdadeiras, de um homem verdadeiro usando sua vontade.

É claro, Jesus não herdou a natureza corrupta de Adão, de forma que suas tentações eram sempre externas, e nunca provenientes de seu coração (já falamos da santidade e da pureza de Cristo). Cristo não era como nós, que nem precisamos de um tentador externo para já sair pecando. Mas ainda assim é inegável que a Bíblia considera como duras provas o que Jesus sofreu na terra. Porém, ao contrário de Adão, e de nós mesmos, ele foi vitorioso e por isso mostrou-se separado dos pecadores neste sentido. Ele é semelhante a nós, é tão homem quanto eu e você, e por este motivo pôde realizar o sacrifício que tira nosso pecado e nossa culpa. E por isso também hoje ele pode nos entender em todas as nossas fraquezas, tornando-se mais confiável e conveniente que qualquer outro sacerdote.

"Só quem sofreu, pode avaliar quem sofreu. Pode se identificar, pode ter o mesmo sentir" (Sérgio Pimenta)

Obs.: Espero não ter feito confusão. Alguns autores consideram errado falar que Jesus foi tentado, pois não tinha o coração corrupto como o nosso. Eles preferem dizer que Jesus foi provado, o que é uma tradução aceitável. O que quero deixar claro é que todas as tentações (ou como o leitor preferir) pelas quais Jesus passou eram de fontes externas. O coração de Cristo, que não era corrupto, e o suporte de sua natureza divina eram impecilhos para uma tentação interna.

ATUALIZAÇÃO (28/04/2006, 18:37): No Livro As Duas Naturezas do Redentor, do Dr. Heber Carlos de Campos (Cultura Cristã), ele nos diz que Jesus era ao mesmo tempo sujeito e não-sujeito à tentação. "Se o Redentor fosse divino, ele jamais poderia ser tentado. Contudo, foi tentado justamente porque era criatura, carente, vivendo em fraqueza em nosso meio, embora nunca tenha pecado" (p. 126s)

1 comentários:

Josaías disse...

como diz o clichê, me corrijam se eu estiver errado.