quinta-feira, abril 27, 2006

Cristo, Nosso Sacerdote (2)

"Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus" (Hebreus 7.26)

2. Inocente

Com isso, o autor não quer dizer que Jesus era alguém simples ou ingênuo. Outros sinônimos para esta palavra são inofensivo, infantil. No entanto, o termo aqui está no sentido forense. Isto significa que Jesus está livre de qualquer condenação por seus próprios atos. Por este motivo a NVI traduz a palavra como "inculpável". Ao apresentar-se diante do Justo Juiz, Cristo não tem necessidade de temer alguma punição da parte de Deus.

Isto não é verdade quando lidamos com os sacerdotes da Antiga Aliança. Aqueles homens eram culpados de seus pecados, e deveriam receber o castigo merecido, se não fosse a graça do Senhor sobre a vida deles. Os antigos sacerdotes, antes de realizarem sacrifícios em favor do povo, precisavam realizar sacrifícios em favor deles mesmos. Era necessário que um cordeiro levasse a punição que aqueles homens, por mais santos que fossem, mereciam. O temor de que o sumo sacerdote sofresse algum castigo quando adentrasse no Lugar Santíssimo era tão grande que os judeus criaram precauções, para o caso de ele morrer enquanto ministrava lá dentro.

Cristo realmente recebeu uma punição divina, mas não foi pelos atos que praticou. Ele recebeu o castigo daqueles por quem morreu, foi contado como criminoso e recebeu o salário do pecado, mas em si mesmo era inocente. No entanto, após carregar esta sentença de condenação, ele ressurgiu dos mortos, e foi designado como Juiz. Jesus, como já dissemos, está sempre na presença de Deus. E, ao invés de assentar-se no banco de réus, ele ocupa uma posição de autoridade neste tribunal (At 17.31). Cristo é o sacerdote que nos é conveniente porque não apenas é inculpável, mas também porque livrou aqueles que são seus do castigo.

3. Imaculado

A palavra grega para imaculado é amiantos. Essa palavra foi usada para batizar uma fibra mineral muito utilizada para reforçar e proteger equipamentos e máquinas. O amianto recebeu esse nome justamente por sua incorruptibilidade e resistência às mais diversas condições. Uma outra tradução para a palavra é "puro" (como a NVI o faz). Jesus, ao contrário dos outros sacerdotes, não se corrompeu em sua vida terrena, resistiu a todas as influências externas que o desviassem de sua missão, e agora oferece proteção completa para sua Igreja.

Nenhum sacerdote da Antiga Aliança poderia ser tão conveniente a nós. Eles eram pecadores por natureza, isto é, a corrupção já estava dentro deles. A qualquer momento poderiam ficar impedidos de ministrar. Eles também não poderiam comer ou tocar nada impuro, ou estariam contaminados. Jesus, pelo contrário, conversou com pessoas "maculadas", mas não sofreu qualquer corrupção. Nosso Senhor tocou em leprosos, mas ao invés de ser contaminado por eles, os doentes é que foram limpos. Pedro entendeu bem esta verdade quando Deus disse que poderia purificar qualquer alimento, mesmo que antes fossem considerados impuros (At 10.15,28). Os sacerdotes antigos podiam apenas proibir as pessoas de se contaminarem, enquanto Jesus purifica aquilo (ou aquele) que é impuro. Não há dúvida de que o sacerdócio de Cristo é infinitamente superior ao levítico.

O Salmo 24 faz uma pergunta que deveria sempre estar em nossas mentes - "Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo?" (v.3). Embora Davi tenha em mente um rei, não podemos negar que há um elemento de sacerdote nesta pergunta. A referência ao Lugar Santo evoca a idéia do Rei-Sacerdote, uma função que o próprio Davi assumiu algumas vezes (1Sm 6). No entanto, o salmista sabia que, apesar da graça de Deus sobre sua vida, ele não era digno de subir ao monte do Senhor, e por isso levanta a questão. Sua resposta encaixa-se perfeitamente em Jesus - "Aquele que é limpo de mãos e puro de coração" (v.4). Embora muitos interpretem esse verso como um chamado à santidade (que às vezes torna-se quase uma apologia à salvação pelas obras), está claro que Davi fala de alguém específico, uma pessoa que seria o Messias vindouro, aqui chamado de Rei da Glória. Somente ele é digno de subir ao monte e permanecer no lugar santo.

E nós, como subiremos? Com Nosso Sacerdote, Jesus Cristo! Ele é nosso representante diante de Deus. Ao assumir uma posição mediadora entre Deus e os homens, o Redentor assume a responsabilidade por aqueles que o seguem, pois torna-se um com eles e eles tornam-se um com Cristo, por meio da fé. Aquele que está em Cristo, entrará com Cristo no Monte do Senhor, pois Cristo é digno de subir até lá. Como um Rei entra em seu palácio seguido de seus exércitos, nós chegaremos ao lugar santo com Jesus. E não porque somos puros, mas porque Ele é puro e nos purifica de toda mácula.

"Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro" (1 Jo 3.3)

"...havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas." (Hebreus 1.3)

4 comentários:

Gustavo Nagel disse...

Interessante sua análise sobre esse verso de Hebreus. Veja só, ainda que tantas dúvidas pairem sobre o livro de Hebreus (autoria, data, destinatário, estilo literário), é inegável que sua mensagem seja apostólica. O livro é perfeito! :) Como se pudesse ser diferente...

Mas eu não tinha lido ou ovido sobre essa influência joanina na carta.

Obrigado pela exposição e Deus o abençoe na pregação.

Valeu pelo comentário lá no blog. Já te respondo lá.

Abraços.

Gustavo Nagel disse...

"ovido"??...hehehe... Ouvido.

Josaías disse...

Nagel, a primeira vez que ouvi sobre isso foi num livro de Oscar Cullman, Cristologia do Novo Testamento. Cullman é considerado liberal, mas percebe-se no seu texto que ele coloca-se muitas vezes contra a grande maioria dos teólogos. Neste livro ele chega a criticar a "deformação profissional" que resulta em uma "alegria quase insana em constatar contradições" (nas palavras dele) que alguns especialistas em NT têm. Estou relendo o livro e para mim está sendo muito instrutivo. valeu pelo comentário também.

Josaías disse...

isso não quer dizer que ele não tropece em algumas coisas... mas ainda assim gosto muito dele.