segunda-feira, maio 15, 2006

Pedro e os sofrimentos do Servo de Deus

- Vade retro, Satanás.

Foi o que Pedro ouviu. Ele não havia aceitado muito bem a idéia de que o Mestre sofreria nas mãos do povo e das autoridadades, a ponto de ser morto. Estava preocupado, talvez, com a frustração de seu sonho do futuro glorioso de Israel. Pedro imaginava uma era que viria depois que este Jesus de Nazaré unisse a população judaica num ataque final contra Roma, trazendo libertação à sua gente. Mas agora ele ouve o Nazareno dizer que o Filho do homem padecerá muito, nas mãos dos sacerdotes e escribas, entre outros. Ora, este não é o Filho do homem que ele conhecia do livro de Daniel. Muito menos o Messias que o povo tanto esperava nas leituras do Salmo 2. Nem parecia haver qualquer traço do Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque de Salmo 110.

Era necessário repreendê-lo, para ver se ele mudava de idéia. A função que Jesus queria assumir era mais parecida com a do Servo Sofredor, um personagem que é levado ao matadouro como um cordeiro. Algo nada vitorioso. É verdade que aparentemente o sofrimento deste Servo têm o poder de tirar pecados, mas de que adianta pecados expiados quando não se tem o que se quer? De qualquer forma, os cordeiros sacrificados quase diariamente já estavam fazendo um bom serviço. Além disso, o Mestre devia ter misericórdia de si mesmo. Como ele pode dizer que seu sofrimento era necessário?

É claro que Pedro estava errado. E, curiosamente, é ele quem dedica mais atenção à questão de Cristo como Servo Sofredor. Não quer dizer que os outros escritores bíblicos não gastam tempo com o sacrifício expiatório de Jesus, mas em 1Pedro o apóstolo dá atenção especial ao assunto. O tema geral da carta é o proceder cristão no mundo, o que muito provavelmente trará sofrimentos. Mas a força para suportar tais aflições vem de sabermos que o próprio Cristo padeceu aqui na terra. Com várias alusões a Isaías 53, texto conhecido como "Cântico do Servo Sofredor", o velho Cefas nos diz no cap.2:


21 Para isso vocês foram chamados,
pois também Cristo sofreu no lugar
de vocês, deixando-lhes exemplo,
para que sigam os seus passos.
23 Quando insultado, não revidava;
quando sofria, não fazia ameaças,
mas entregava-se àquele que julga com justiça.
24 Ele mesmo levou em seu corpo
os nossos pecados sobre o madeiro,
a fim de que morrêssemos para os pecados
e vivêssemos para a justiça;
por suas feridas vocês foram curados.


Aquele que mais protestou contra os sofrimentos de seu Mestre, que sequer presenciou o sofrimento de Cristo, é agora o apóstolo que destaca o castigo de Jesus como fonte de poder e esperança para os crentes. Podemos aprender no livro de Atos que essa mudança aconteceu em poucos dias. No capítulo 3 de Atos, Pedro chama Jesus de Servo duas vezes (vv. 13,26) e finalmente admite que era necessário o sofrimento do Messias (v. 18). Uma transformação grandiosa ocorrera no discípulo e ela era fruto do que anterioremente ele mais temia - os sofrimentos de Cristo na cruz. Imagino que Pedro até se arrependia de não ter contemplado "ao vivo" o sacrifício voluntário do Mestre pelos pecadores. Não por um desejo sádico ou curiosidade mórbida, mas para ter gravado em sua mente aquele momento em que destinos - como o dele - foram alterados para sempre*.

Pedro entendeu o significado e valor dos sofrimentos - mesmo não sendo os dele - de forma um pouco tardia. Mas podemos hoje entender que Deus tem um propósito maior e um futuro glorioso para seus servos, mesmo nas mais duras provações. Meu amigo Charles Grimm sempre diz que o dom da graça que certamente não experimentaremos no paraíso é o de sofrer por Cristo (Fp 1.29), por isso não devemos simplesmente desprezar os sofrimentos e provações na terra. Não quero dizer que devemos nos martirizar, apenas lembro que, como imitadores de Cristo, podemos muitas vezes glorificar a Deus como servos sofredores também.


* É claro que os destinos estavam pré-determinados num sentido metafísico. Mas nesta frase estamos falando num sentido humano, destacando mais o meio para Deus chegar a estes destinos pré-determinados.
1 Vagamente baseado no capítulo sobre o Servo de Deus no livro Cristologia do Novo Testamento, de Oscar Cullman
2 "Vade retro me, Satanás" é como texto da Vulgata Latina traduz o momento em que Jesus repreende Pedro em Mc 8.33.

4 comentários:

João de Séllos disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
João de Séllos disse...

Josaías,
Primeiro quero dizer que gostei do conteúdo do seu blog e tomei a liberdade de "linkar" o meu blog no seu.
Segundo, sobre os sofrimentos, Pedro vai mais além e chega a dizer q fomos chamados para sofrer pela causa do evangelho.
Veja o texto que escrevi sobre isso(http://joaosellos.blogspot.com/2006/05/chamados-para-sofrer.html)
Um abraço,
João

Josaías disse...

valeu joão
adicionarei vc também
abraços

tem outro detalhe interessante: Pedro é provavelmente a fonte para o Evangelho de Marcos, conhecido como o "Evangelho do Servo"

João de Séllos disse...

Josaías,
Quanto a Pedro é interessante tb como Deus transformou de modo que um simples pescador veio a ser usado de tal forma tanto para escrever qnto para falar, lembrando o discurso em Atos após a cura do aleijado da porta do templo formosa e como se espantaram com a instrução dele apesar de não ter sido educado em escola rabínica da época.
Abraço.